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domingo, 22 de outubro de 2017

A construção do Neotamano

Era uma aposta arriscada: introduzir variação linguística nos diálogos das personagens, de modo a caracterizar culturas diferentes de um mundo de fantasia ambientado numa alegoria da infância. A decisão foi tomada em 1998 e acabou influenciando toda a história que eu escrevia, alimentando um enredo de fundo.

Considerei que essa variação precisava ser consistente e soar suficientemente diferente para que o leitor a notasse, mas não tanto a ponto de ser incompreensível. Foi uma decisão trivial adotar para uma o português brasileiro e para outra o de Portugal; bem mais fácil do que garantir que os diálogos estivessem, de fato, escritos nessas variantes.

Hachurada em amarelo, a região onde o neotamano
se desenvolveu, junto às duas capitais do novo
Reino Unificado do Tamatich.
Eu precisava, ainda, de uma variante histórica. E foi aí que mais introduzi a liberdade de um mundo de Fantasia. As crianças do Tamatich foram descritas como tradicionalistas, apegadas a valores do passado; além disso, o Tamatich foi apresentado como um reino unificado, composto por duas antigas potências rivais, a belicosa e leal Tamma e a artística e sofisticada Ticch. Pareceu-me que o português medieval cairia bem para a antiga Tamma, mas não para Ticch. E o português etimológico, do século XIX, cheio de palavras eruditas incorporadas para nomear os objetos do estudo científico, era a cara de Ticch, mas jamais a de Tamma. Decidi então usar uma variante artificial, que mesclasse elementos de ambas as fases históricas, como se decorresse do convívio forçado que tammanos e ticcos passaram a ter após a unificação.

A esse dialeto artificial dei o nome de "neotamano", em alusão ao idioma mais arcaico falado em Tamma, o "tammanor".

Embora fosse artificial essa variante, não queria que ela fosse completamente arbitrária, mas sim que refletisse fatos históricos da língua portuguesa. Foi por isso que construí o neotamano (bem como o tammanor) a partir de gramáticas históricas e estudos da evolução do Português.

Algumas das referências usadas para construir o neotamano.
As principais características do neotamano são as seguintes:
  1. A ortografia baseia-se naquela do começo do século XIX, antes da reforma ortográfica de 1911. Desta forma, usa-se palavras com ph, y, cc, ll, etc.
    Cabe-me alembrar-vos de que, consoante as ilustres regras do bom-fallar neotammano
  2. Embora correspondam a um outro período histórico do nosso idioma, a acentuação inclui os acentos diferenciais de timbre introduzidos em 1943 e abolidos em 1971.
    Nom creo que teria êsse novo govêrno
  3. Várias palavras apresentam variações decorrentes de evoluções históricas fictícias que teriam resultado em termos dialetais nos dias atuais. Ex. somana, em vez de “semana”; acaecer, em lugar de “acontecer”; conhoscer, em lugar de “conhecer”.
    Alende isso, sempre vivemos às imigas co elles.
  4. Há distinção entre as preposições por (consequência) e per (instrumento) e suas derivações pelo (a/s) e polo(a/s).
    Nom credito que acá só polo prazer da caçada estejais...
  5. As palavras cujo plural terminam em –ões são escritas no singular com –om (tal como no português medieval). As palavras que terminam em –ães têm no singular –ám. Somente aquelas que fazem plural em –ãos têm –ão no singular.
    na condiçom de princeza do Reino Unificado
  6. A ordem da frase é um tanto irregular, cheia de inversões, tal como no português de 1600. Há uma tendência a colocar no fim o termo principal, geralmente o verbo.
    A chave dêste enigma poderia, destarte, em Ístar algures estar
  7. O uso de pleonasmos, frases feitas e adjetivações desnecessárias é constante. Estes adjetivos frequentemente são incorporações latinas tardias. Ex: os feros animais; seus próceres amigos; mui mestos e peligrosos eventos.
  8. As subordinações são mais frequentes do que as coordenações.
  9. Os pronomes de tratamento são parte fundamental da estrutura hierárquica que a língua guarda. O uso de tu, nós, vós, etc, relaciona-se intimamente com a atitude do falante perante o(s) ouvinte(s).
  10. Há frequentes conjuntos de conjunções adversativas de valor idêntico.
    Mas, contudo, todavia, hemos também nós...
  11. Há três séries de pronomes demonstrativos: este (a) + isto, esse (a) + isso e aquele (a) + aquilo; e duas séries de demonstrativos reforçados: aqueste (a) + aquisto e aquesse (a) + aquisso.
    A culpa é daquesse pulcro candeeiro 
  12. O gerúndio é evitado ao máximo. Em seu lugar, usa-se uma locução verbal formada pela preposição a e o infinitivo do verbo.
    Peço-vos notícias da estrada e de vosso paiz, porquanto lá estamos a ir.
  13. O particípio de verbos da 2a Conjugação termina em –udo.
    em intensidade a cada dia tem cresçudo
  14. Quando os pronomes oblíquos o ou a (bem como suas formas plurais) são usados após verbo no infinitivo, o r do infinitivo transforma-se l: fazer + o = fazel-o.
  15. Os pronomes oblíquos são sempre atraídos por advérbios, palavras de sentido negativo ou conjunções. São usuais as combinações do pronome oblíquo com pronome demonstrativo: mo, to, lho, etc. As combinações de nos + o(s), nos + a(s), vos + o(s) e vos + a(s) produzem, respectivamente, nol-o(s), nol-a(s), vol-o(s), vol-a(s).
  16. Quando os pronomes demonstrativos o ou a (bem como suas formas plurais) são usados após palavra que termina em vogal nasal, eles se modificam para no (s) ou na (s), independentemente da palavra que o antecede. Se esta palavra terminar em s ou r, eles se modificam para lo (s) ou la (s) e o s ou r cai.
    nom no conhocem meus bravosos meninos-d’armas
  17. Alguns advérbios e conjunções têm formas arcaicas: acá = aqui, alá = lá, assi = assim, quási = quase, ca = que (em sentido concessivo ou explicativo), perém = porém, etc.
  18. A forma usual do futuro composto com o verbo haver é haver-de + verbo principal no infinitivo.
    Há-de perdoar-me, Vossa Valentia, por êsse incómodo malentendimento
  19. Há uma forma arcaica de pretérito perfeito formada pelo verbo haver seguida do particípio passado do verbo principal. Ex: Há dito = disse.
    hoje qual guarda se vestiu e entrar ascondudo há tentado
  20. Cada verbo possui um particípio presente formado pelo acréscimo de –ante, -ente ou –inte ao tema da respectiva conjugação.
    um caçador passante por nossas terras.
Achou divertido? Que tal conhecer mais sobre o neotamano e os tamatiscos no livro O Rei Adulto?

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Usando dialetos para representar a variação linguística em mundos de Fantasia

Alguns autores de Fantasia gostam de marcar de forma bem distinta as diferentes culturas de seu mundo. Em alguns casos mais elaborados (leia-se, tolkianescos), essas diferenças podem chegar ao nível linguístico, envolvendo idiomas distintos e/ou dialetos.

Azulejos na Casa do Barreiro, Gemieira, Viana do Castelo, Portugal. Um poema
de Francisco Sá de Miranda. Licença CC BY-SA 3.0, por José Gonçalves.

A história de Tolkien é conhecida: linguista, criou inúmeros idiomas e, posteriormente, uma história épica que os justificasse. Mas o mais comum é que o escritor crie os idiomas pari passu à criação de seu mundo.

Um idioma artificial usado em obra de fantasia e ficção científica tem lá seus atrativos. Mas, a não ser que o autor seja um novo Tolkien, penso que tal criação deva ficar restrita a poucas, específicas frases. Pois o leitor não dominará o idioma artificial usado na história e, em se depararando com longos parágrafos indecifráveis, terá pouca paciência para prosseguir.

Neste caso, acho mais interessante o uso de dialetos e variantes linguísticas, ainda que algumas sejam um tanto artificiais.

Suponha que em um mundo fantástico, o idioma comum seja o Xyplyzd (ou qualquer outro). Todos entendem o Xyplyzd, mas alguns povos o pronunciam de forma ligeiramente diferente, pois imprimem a ele seus sotaques e vícios linguísticos. Um autor minucioso pode criar a gramática do Xyplyzd e escrever todos os diálogos de sua história em Xyplyzd. Mas talvez tenha dificuldade em encontrar leitores interessados em aprender o Xyplyzd para conseguirem entender a história.

Todavia, esse autor pode pensar doutra forma: todos os personagens em seu mundo fantástico entendem o Xyplyzd, mas a história precisa ser escrita para um público lusofalante (ou anglo-, franco-, hispanofalante, etc.). Nesse caso, podemos considerar que todos os diálogos em Xyplyzd estão apenas sendo representados traduzidos para o Português. Essa ideia permite o uso de dialetos do próprio Português como representantes das variantes do idioma imaginário original Xyplyzd.

Note que não há necessidade de que os dialetos empregados sejam existentes no nosso mundo real, pois o gênero Fantasia dá liberdade para a criação não apenas de mundos fantásticos, mas também de recursos linguísticos fantásticos. Esses dialetos podem refletir características dos próprios povos que não usam majoritariamente o idioma comum. Por exemplo, um povo muito isolado e acostumado a viver em carestia pode ter dificuldade de lidar com o conceito do plural, que não existiria em seu próprio idioma (o qual chamaremos de Zyfd); quando se exprimem no idioma comum, esse traço de ausência de plural acaba contaminando sua fala. Assim, se usarmos o Português para representar os diálogos em Xyplyzd, podemos usar frases sem plural ou com plural errado para representar os diálogos em Xyplyzd dos falantes nativos do Zyfd. Esse exemplo apenas serve para representar que os dialetos usados pelo autor não precisam seguir modelos preexistentes do mundo real.

A principal preocupação do autor deve ser criar dialetos e variantes inteligíveis e coerentes entre si. Precisam ser inteligíveis, para que o leitor apreenda o sentido da frase sem muita dificuldade -- justamente por isso, não se usou um idioma puramente artificial. E precisam ser coerentes entre si, pois o leitor irá exigir isso.

Seja quais forem suas escolhas de representação linguística, elas devem ser justificáveis pela própria história. Um personagem pode falar latim corretamente (se tiver anos de estudo formal) ou de forma errada (se vier de classes mais humildes). Mas, por exemplo, se ele é um anjo em missão na Terra não deveria misturar aleatoriamente palavras em português no meio duma invocação supostamente solene em latim, sem que haja um motivo na história que explique isso. Do contrário, o leitor ficará com a sensação de que é o autor quem, de fato, não sabe latim, e não seu personagem.

Em "O Rei Adulto", uso algumas variantes históricas e regionais para representar os idiomas dos reinos infantis. São cinco os principais idiomas (representados por "dialetos"): o nortenho, o sulino, o gandaio, o neotamano e o tammanor. Usei diálogos escritos em cada um deles. Há uma comparação entre esses dialetos aqui. Para manter a coerência, criei um documento com as "regras" de cada um desses dialetos, para me ajudar a separá-los. Feito isso, separei todos os diálogos de um determinado dialeto em um documento próprio (por ex., um documento de diálogos nortenhos, outro para diálogos sulinos, etc). Depois, corrigi todos diálogos de acordo com o conjunto de regras correspondentes. Por fim, após a correção, incorporei diálogo por diálogo, em sua posição devida no livro. Essa descrição pode dar a impressão de ter sido algo muito trabalhoso, mas foi menos do que tentar corrigir os diálogos isoladamente ao longo da história, mesclando regras gramaticais de cada parágrafo à medida que se sucedessem.

Se tiver interesse em verificar o resultado final, adquira seu exemplar de O Rei Adulto. Se já o leu, deixe aqui seus comentários!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Dia Internacional da Língua Portuguesa

No dia 5 de maio, comemora-se o Dia Internacional da Língua Portuguesa. A Língua Portuguesa é o sexto idioma mais falado no mundo, sendo língua oficial em 9 países. Além destes, também sobrevive como idioma de pequenas comunidades em cidades da Ásia onde Portugal manteve colônias por vários séculos e nas comunidades de imigrantes lusófonos em outros países.

Notícia de Fiadores (1175), o mais antigo texto conhecido em Português. IAN/TT, Mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto, maço 2, documento 10; 120×327mm


O português possui algumas dezenas de falares e dialetos. Mesmo no Brasil, encontramos uma diversidade de sons, entonação e vocábulário na expressão do idioma. Essa variedade enriquece a Língua Portuguesa, que se  por ser várias dentro de uma, nas palavras de Saramago.

Essa pluralidade da Língua Portuguesa é celebrada ao longo do livro O Rei Adulto, onde emprego formas distintas da Língua Portuguesa para marcar os falares de cada reino infantil. Eis alguns exemplos:

Sulino (baseado no português falado no Brasil)
— Não adianta, Velho! Esse medalhão tá estragado, pô! Que droga! Não tá funcionando!

Nórdico (baseado no português falado em Portugal)
— Oh, sim! Górmis Kiêdlhu, vulgo Uaioé, por falar tão ligeiramente que quase tão-só solfeja vogais, afamado feiticeiro do Oriente. É irmão de meu mestre. Conheci-o quando vivi em Ístar, durante meu aprendizado em magia. Está a dormir em meus aposentos... Aliás, graças a ele estou desperto, pois seu ronco soa para além do tolerável...

Neotamano (construído como um português alternativo, que mescla a fase etimológica do século XIX com algumas construções do século XVI)
— Dizeis vós enchente? A-la-fé, houve um verdadeiro dilúvio! Atá a torre do templo tive de nadar, pero, despois, ai que tudo despareceu! Earamá! Hei-de na estrada morrer de assombros, dês que acá nom fico nem mais um pingote de minuto, ca isso nom é cousa de gente normal, nom...

Tammanor (baseado no português do século XIV)
— Deueras importamte, cõ seu perdom. Uoſſa Ualentia importars’ia de a meu jrmãao mays nouo padrĩhar, qual jrmãao emcorporado aa guarda paaçal oje sera? Seeria aa ſa carreira hũu magnyfico incentiuo tam prestigioso padrĩho teer...

Gandaio (baseado no português falado pelas classes pobres do sudeste brasileiro)
— No cumeço, tinha muito’ zamigo meu aqui no depósito. Hoje, quase todo mundo morreu no campo ou tá quase morreno. Eu ina ficava contente de vê eles pur aqui, mermo qu’eles num falasse cumigo.

Tentei com isso transmitir ao leitor através da escrita um análogo da sensação de estranhamento e reconhecimento que ele teria ao ouvir dialetos de culturas diferentes, embora relacionadas.

Além disso, alguns personagens apresentam particularidades em sua fala, que deixei como "ovos da páscoa" para o leitor identificar. E há histórias paralelas que foram desenvolvidas em torno de brincadeiras ou motivos linguísticos, como o Desafio do Nuncanão, os Montes que Falam e a Lenda dos Bracicípites.

E por falar em livro, celebre esta data lendo algum bom livro. Como diz Carlos Drummond de Andrade: "A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede." Não tenha medo de viver com sede!