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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Um conto de Fantasia em Tupi Antigo

"Fundação de São Vicente", por Benedito Calixto de Jesus.
Acervo do Museu Paulista da USP

Quando avançava na escrita de meu livro, em meados dos anos 90, planejava a elaboração de vários pequenos apêndices que serviriam como expansão à história principal. Em 2001, após 10 anos de projeto, decidi que era hora de terminá-la e resolvi incluir apenas os apêndices já redigidos. Um desses foi escrito integralmente em Abanheenga (Tupi Antigo), em homenagem aos caaporas, e aborda a guerra que os dividiu em torno da função desempenhada pelas meninas como líder máximo das aldeias.

Os dois livros com
os quais aprendi
o Tupi Antigo.
Esta história é contada de forma resumida por Amanara, no Capítulo 15 de O Rei Adulto. O apêndice "Marana Ka'aporubixapaba Resé" estendia-a um pouco mais. A ideia de escrever um pequeno conto em Tupi Antigo veio do desejo de usar esse fascinante idioma em um texto moderno, revitalizá-lo, apresentá-lo aos leitores como um tesouro cultural genuinamente brasileiro, algo que nos caberia preservar. À época, a chegada de Cabral ao Brasil completava 500 anos, e a publicação do livro Método Moderno de Tupi Antigo, do Prof. Eduardo Navarro, pela editora Vozes, alimentava meu ímpeto nacionalista.

Escrever o conto seria um desafio duplo: testar meu conhecimento do Tupi Antigo, adquirido pelos livros de Navarro e do Pe. Lemos Barbosa, bem como traduzir num idioma antigo um conto de Fantasia, de um mundo diferente daquele habitado pelos tupiniquins e tupinambás.

Esse apêndice foi incluído na edição independente que lancei em 2015, mas não faz parte da edição atual lançada pela AZO. Decidi deixá-lo de lado porque a proposta atual é simplificar a edição para viabilizá-la a um público maior. Além disso, poucos apreciariam o apêndice posto que não o entenderiam, já que não viria com a tradução. Considerei que é mais adequado apresentá-lo aqui, no blog.

Segue abaixo o apêndice em Tupi Antigo e sua tradução ao Português. Quem já leu o livro poderá comparar com a história contada no Capítulo 15. Em linhas gerais, é a mesma história, mas com algumas informações adicionais.


Marana Ka'aporubixapaba Resé A Guerra pela Liderança dos Caaporas

Oîepé serã r’a'é, ka'á-gûasu-pe, s-era Grínkor tab-usu-pe, marã’-mboxy o tyb-amo. O-pokó’-pokok o îo-esé pitang-etá, ka'apora s-er-y-ba'é. Kó marana nd’o-îkó-é-î marana amõ tetirûã suí, i typ-ag-ûera Mitanga 'Ara. Moîekosup-aba s-esé-te i aîbĩ-ngatu ka'apora supé, i 'anga mombok-ypŷ-á-bo, i pûerab-e'ymb-aba kori îé.

'Y-maran-usu riré i ypy-û. Grínkor îe-ekó-monhang-aba, ka'apora r-emi-motar-eté-puku, îa-î-moarûab Siles, Macebólia R-ubixab-ĩ, ka'apora pytybõ-mbûera i xupé îepé. Marã’-monhang-etá riré nhõ-te ka'apora îekosub-i amõ îe-r-ekó-aba r-esé. Macebólia R-ubixab-ĩ-te ka'apora o-î-pe'á-pá-potar, o emi-motara ka'á-gûasu asŷaba r-esé o-î-á-bo.

Aîpó ka'apora o-î-moaîu-katu. Grínkor-y-pe opá-katu tab-ubixaba mor-ubixá’-kunhã nhe'eng-apîar-i. A'é t-ekó-monhang-ara opá t-ubixaba sosé, opab-ĩ-inhẽ taba o-î-mono'ong-y-ba'é. Siles r-emi-motara aûîé o-î-á-bo-mo, ka'apora r-ekó-bé-saba mondygûer-i-mo.

Ka'á-gûasu-bo, tab-ubixab-etá aîpó ro'yrõ-û. Oîepé taba nhõ-te, Gûarinĩndaba s-er-y-ba'é, aîpó nd’o-î-ro'yrõ-î, o ubixaba kunumĩ-maramotara, Akangatã s-er-y-ba'é.
Akangatã nd’o-î-potar-i o ubixaba nhe'eg-apiá, i kunhã-namo r-esé. Kó ri, Macebólia-ygûara r-e-r-ekó-û mũ-namo.

Ka'á-gûasu i pe'á-pyr-a t-etama mokõî r-upi. Gûarinĩndab-ygûara o-gû-ar t-etam-usu, t-urusu-eté s-ekó-bé-sag-ûera suí. A'é-riré, Akangatã o-akasang-ityk-ityk-ypy mor-ubixá’-kunhã mor-ubixab-amo s-ekó-monhang-aba kunumĩ sosé. O atã r-e-ro-bîar-usû-á-bo, Akangatã gûarinĩ-ybyrá-par-etá Macebólia-ygûara r-eyîa-no mondyb-i, Ybyra'oketá-pe s-e-ro-gûatá-bo, i pogûyra r-asag-ûã’-me. O-î-mo'ang opá amõ taba r-ekó og upi, mor-ubixá’-kunhã îabapa bé-no, mor-ubixab-e'ym-amo taba r-eîá’-saba.

Emonã s-ekó-e'ym-i. Pogûyra i me'eng-y-pyr-ûera kunhã supé, ta kunumĩ o-nho-marã’-monhang ymẽ, ka'apor-ubixá’-gûapyk-aba potá. O morubixá’-kunhã r-esé, ka'apora r-ero-bîar-i. Opá amõ ka'apora tab-usu o-nhe-mũ morubixá’-kunhã supé: Ema'ẽ, Ybyra'oketá, Ybytyratá, Ipopirasuí, Tukatu, Sugûypirangapé.

Akangatã gûasẽ’-me Ybyra'oketá supé, nhe-rana r-obaîtĩ o supé bé o emi-arõ-mbûera sosé. Taba o-s-arõ kaysá-ybaté, morubixá’-kunhã mũ r-emi-monhang-ûera. Akangatã mũ t-atá-u'uba o-gûe-ro-epenhan, mokab-usu o-î-mopok, opá ybyrá-patagûi mombapa biã.

Pitang-etá o-îo-gûe-r-ekó Ybyra'oketá-pe. Marana s-o'ó-etá o-î-mosykyîé, i kûara motyg-ûé, pytu'u-e'ym-amo i moîngó-bo, Ka'a'anga Py'aoby monharõ-mo. Tyg-ûera s-etá: ybyrá s-apy-pyr-ûera, s-o'ó iî ybõ-mbyr-ûera gûarinĩ ambyasy-asy r-esé, 'y upaba-no o-îkó s-ugûy r-emi-mopirã’-mbyr-amo. Ka'a'anga Py'aoby ka'apora o-s-aûsub-usu, a'é-reme-te opá-katu mokanhẽ’-momboî ka'á suí, marã’-moangaîpaba r-esé.

Ybyra'oketá arõ-ana nd’o-syî, nd’i aûîé-î sumarã supé, i popesûa’-katu r-esé îepé.

Marana 'ara amõ riré, Akangatã o eîtyk-e'yma kuab-i, o-îeby Gûarinĩndaba pupé. Kunumĩ-maramotara taba-îar-amo o-îkó-potar, tobaîar-amo-te r’akó s-ekó-û.

Maran-iré, ka'apora t-etama r-ár-i bé, Siles r-emi-me'eng-ûera tobaîara supé.

Kori ka'apora tobaîara îo-e-r-ekó-bé-katu-û.

Pereba-te s-asy îé. S-asy serã îepi.


Diz-se que uma vez, na grande floresta, cujo nome nas cidades grandes é Grínkor, uma guerra torpe aconteceu. Muitas crianças lutaram umas com as outras os chamados caaporas. Esta guerra não foi diferente de outras quaisquer que ocorreram no Mundo das Crianças. Mas suas consequências foram muito ruins para os caaporas, dividindo pela primeira vez sua alma, ferida que ainda não hoje não sarou.

Isso começou após a Guerra das Águas. A Independência de Grínkor, longamente desejada pelos caaporas, foi obstada por Siles, Príncipe da Macebólia, apesar da ajuda que os caaporas lhe prestaram. Somente após muitas batalhas, os caaporas obtiveram alguma autonomia. Mas o príncipe macebol buscava dividir completamente os caaporas, bem como repartir a grande floresta.

Esses caaporas o incomodavam muito. Em Grínkor, todos os chefes de aldeia seguiam a morubixaba-menina. Ela era a que fazia as leis sobre todos os chefes, a que reunia todas as tabas. Se o desejo de Siles se realizasse, o modo de vida dos caaporas seria destruído.

Pela floresta, os chefes das aldeias recharam isso. Mas uma única aldeia não o fez, aquela de nome Guarinindaba, cujo chefe era um menino briguento chamado Akangatã.
Akangatã não queria obedecer sua morubixaba, por ser ela uma menina. Por isso, ele aliou-se aos macebóis.

A grande floresta foi dividida em duas regiões. Os habitantes de Guarinindaba receberam um território muitas vezes maior do que aquele em que viviam. Depois disso, Akangatã começou a lançar dúvidas sobre a liderança da morubixaba-menina sobre os meninos. Confiando muito em sua própria força, Akangatã reuniu uma multidão de seus arqueiros e de macebóis, fazendo-os marchar até  Ybyraoketá, para trespassar suas defesas. Pensava que teria o apoio de todas as outras aldeias e que a morubixaba-menina fugiria, deixando sem liderança o trono da aldeia.

Não aconteceu assim. O poder fora dado às meninas, para que os meninos não mais lutassem entre si para tomar o trono caapora. Os caaporas confiavam em sua rainha. Todas as outras grandes aldeias caaporas aliaram-se à morubixaba-menina: Emaém, Ybyraoketá, Ybytyratá, Ipopiraçuí, Tukatu, Suguypirangapé.

Quando Akangatã chegou a Ybyraoketá, encontrou uma resistência muito maior do que esperava. Protegia a aldeia uma enorme caiçara, construída pelos aliados da morubixaba-menina. Os companheiros de Akangatã lançaram flechas de fogo, dispararam bombardas, destruindo toda a paliçada, mas em vão.

Muitas crianças combatiam entre si em Ybyraoketá. A guerra matou muitos animais, arrasando suas tocas e  asfixiando-os, deixando o Espírito da Floresta irritado. Eram muitas as destruições: as árvores que foram queimadas, os animais que foram flechados devido a fome dos guerreiros, os rios e lagos que ficaram tingidos de sangue. O Espírito de Floresta amava muito os caaporas, mas depois disso ameaçou expulsar todos da floresta,por causa da guerra perversa.

Os defensores de Ybyraoketá não recuaram, não se renderam aos inimigos, embora estes estivessem bem armados.

Após vários dias de guerra, Akangatã reconheceu sua derrota, retornando para Guarinindaba. O menino guerreiro queria ser o tabajara, mas na verdade tornou-se o tobajara.

Após a guerra, os caaporas tomaram de volta a região que Siles tinha dado aos tobajaras.

Atualmente, os caaporas e os tobajaras vivem bem um com os outros.

Mas a ferida ainda dói. Talvez sempre doerá.

NOTA: Na tradução, as palavras tabajara/tobajara compõem um trocadilho em Tupi: tabajara significa "chefe da taba", enquanto tobajara significa "inimigo".

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os Caaporas

Meninos caaporas. Imagem modificada de original em domínio público.

Na grande floresta de Grínkor, vive uma tribo de crianças que chamam a si mesmo de "caaporas" (ka'á + pora = habitante da floresta). Nas cidades macebóis vizinhas à floresta, é mais comum chamá-los de "o povo da mata".


Inicialmente, eles moravam em casas construídas entre os galhos de árvores frondosas, no entorno de uma taba chamada Tabypy (taba + ypy = primeira aldeia). Quando essas árvores morreram, Tabypy foi abandonada e tornou-se uma tapera. A maioria de seus habitantes migrou para o sul da floresta, onde fundaram Ybyraoketá (ybyrá + oka + etá = muitas casas de árvores), uma taba que segue a mesma arquitetura de casas nas árvores de Tabypy. Mas, alguns caaporas preferiram erguer aldeamentos noutras partes da floresta, não necessariamente entre os galhos de árvores. Assim surgiram, entre outras, as cidades de Emaém (E-ma'ẽ! = veja!; em referência à beleza da paisagem), Ipopiraçuí (I por pirá suí = cheia de peixes), Guarinindaba (guarinĩ + taba = aldeia dos guerreiros), Ybytyratá (ybytyra + tatá = montanha de fogo, vulcão), Tukatu (tura + -katu = boa vinda), Sugûypirangapé (Sugûy + piranga + apé = caminho do sangue vermelho; referência ao rio Artéria) e Jaguacuara (Îagûara + kûara = esconderijo da onça). Ybyraoketá foi escolhida como sua capital, em deferência ao estilo de sua antiga Tabypy.

Em Ybyraoketá, é possível ir de casa em casa usando pontes
e cordas, sem precisar descer ao chão. Imagem modificada de
Bamboo House Mawlynnong | © Editor Gol Monitor / Flickr

Eles usam roupas simples, trançadas com fios de cauuma (ka'á + u'uma = planta macia) e têm a pele acastanhada. Alguns gostam de se ornar cordas atadas aos braços e tornolezos, além de pinturas em padrões geométricos pelo corpo. Eles veneram Ka'a'anga Py'aoby (ka'á + 'anga + py'á + oby = espírito da floresta coração verde), aquele que as demais crianças chamam de Grínkor, o Espírito da Floresta.

 
O idioma dos caaporas é o Abanheenga (abá + nhe'enga = língua de gente), mas a maioria deles também sabe se expressar mais ou menos bem em Nortenho. E alguns de seus pajés e xamãs alegam ser capazes de falar diversas Soonheengas (so'ó + nhe'enga = língua de animal).

São amantes de histórias e lendas, e boa parte de sua cultura gira em torno da preservação e transmissão dessas histórias. Grande destaque em sua sociedade tem o sacerdote ou sacerdotisa que carrega o título de Mombeú Mboeçara (mombe'u mbo'e-sara = mestre do narrar), que se encarrega de garantir que as crianças caaporas nunca percam a imaginação, caso o espírito mau Moangu (moanga + 'u = comer ideias) tente comer seus sonhos.

Por apreciarem as histórias, sempre receberam muito bem os visitantes d'além-floresta, especialmente quando estes vêm em buscas e aventuras. Sua gentileza frequentemente era retribuída com algum presente, muitos dos quais não lhes serviam no dia-a-dia. Eles, assim, resolveram que dariam esse presente à próxima busca de crianças que os visitasse. Tal costume deu origem à Jetanonga (îetanonga = dar oferenda, presentear), a cerimônia de troca de presentes entre uma busca do passado e outra do futuro intermediada pelos caaporas.

Mas não pense que eles são um povo tímido, pois também têm suas desavenças com os macebóis e entre eles mesmo. O mais doloroso desses conflitos levou à uma divisão de seu povo: as aldeias Guarinindaba e Jaguacuara uniram-se e pelejaram contra as demais, pois seu chefe Akangatã (akanga + atã = cabeça dura) queria ser coroado líder dos caaporas. Akangatã perdeu essa guerra, mas aliou-se aos macebóis e declarou-se líder dos poretés (pora + eté = povo legítimo); já os caaporas passaram a considerá-los rebeldes tobajaras (tobaîara = inimigo).

Em O Rei Adulto, você conhecerá um pouco mais sobre os caaporas e seu papel na busca de Êisdur. Compre o seu exemplar!

Todas as etimologias apresentadas acima são do tupi antigo, tomado como idioma para representação do Abanheenga. Você pode aprender o tupi antigo a partir dos livros do Prof. Eduardo Navarro ou do já esgotado Curso de Tupi Antigo, do Padre Lemos Barbosa.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Cenas de Grínkor

A floresta de Grínkor figura como localidade principal dos capítulos 13, 14 e 15 de O Rei Adulto. As ilustrações correspondendes a esses capítulos foram feitas entre fevereiro e março. Esta postagem apresenta-as, bem como os devidos créditos das imagens que foram usadas para compô-las.

A Árvore-Castelo do Espírito da Floresta 


No capítulo 13, os suprapátrias encontram-se com o Espírito da Floresta e conhecem sua residência: uma árvore que tem formato de castelo.


Ao contrário das ilustrações de outros capítulos, quase tudo nessa ilustração é pintura digital. A única coisa que não é pintura é a textura de fundo, que apresenta várias copas de árvores e é uma fotografia de Ruslan Kokarev.

A grama, os arbustos e a copa da árvore-castelo foram feitos com pincéis do Gimp Paint Studio. O resto foi fruto de minhas parcas habilidades de desenho e alguma sorte. Ao fim, apliquei sobre a ilustração o filtro Graphic Boost do GMIC, que avivou bastante a ilustração.

A Cidade das Lendas


No capítulo 14, os suprapátrias chegam a Ybyraoketá, conhecida como a Cidade das Lendas, por ser um centro de difusão de histórias dos caaporas, a tribo que habita a floresta de Grínkor.

Ybyraoketá é uma palavra do Abanheenga (Tupi Antigo) que significa "muitas casas de árvore". De fato, a cidade é composta por casas construídas sobre as árvores (as ibiraocas).



Para essa composição, decidi iniciar a partir de uma simulação 3D realizada com o Blender. Construí os objetos tridimensionais e dispus a cena como gostaria de representá-la.


Em seguida, escolhi um ângulo para a câmera e renderizei os objetos. Importei a renderização com o Gimp e comecei a substituir apenas os troncos 3D por texturas de árvores de algumas imagens:
Novamente, os arbustos e folhagem vieram de pincéis do Gimp Paint Studio. Desenhei com detalhe uma das ibiraocas seguindo o volume da renderização. Depois repeti a mesma construção nas demais posições, mas variei o tamanho e a orientação das portas e janelas. Usei ainda como fundo, entre as árvores, a imagem Oak Forest de Hans Braxmeier. Finalizei com as ilustrações da escada e das pontes de corda entre as ibiraocas.

Na verdade, não fiquei muito satisfeito com o resultado final dessa ilustração. Mas ela serviu para me fazer experimentar novas técnicas.

 As imagens citadas acima foram distribuídas pelas licenças CC0.
 

O Tucano e a Onça


No capítulo 15, os caaporas contam diversas lendas da floresta às crianças que buscam o Rei Adulto. Uma dessas lendas é sobre como o tucano se tornou o rei dos animais, que você ler aqui. Houve um pacto entre o tucano e os felinos, e ele teve de governar de dentro da boca de uma onça.


Esta foi a composição mais simples de fazer até o momento, embora nem por isso menos divertida. Usei apenas duas imagens:

Nos termos das licenças CC BY-SA 3.0, a imagem derivada ao lado é aqui distribuída segundo a mesma licença CC BY-SA 3.0.

domingo, 4 de setembro de 2016

A história por trás da estória. III

As diferentes regiões do Mundo das Crianças foram caracterizadas por falares ou dialetos próprios. Esses falares são usados apenas nos diálogos e ajudam a construir o cenário subjacente à trama. A decisão de incluí-los no texto foi fruto de outro longo processo de reflexão e experimentação.

Nos Apêndices de O Rei Adulto apresento seis principais falares/idiomas: o Sulino, o Nortenho, o Neotamano, o Tammanor, o Gandaio e o Abanheenga. Além desses, menciono como falares restritos a comunidades mais reduzidas o Alto Terense, o Astórgico, o Narônico e o Calô. A Lingua do Pê seria um idioma infantil à parte, usado apenas em situações de espionagem ou festivais. Além disso, certos personagens usam idioletos bem marcados.

Em meus manuscritos produzidos entre 1991 e 1997 não havia nenhuma distinção nos falares das crianças de cada reino, nem tampouco idioletos. Toda essa variedade linguística foi introduzida a partir de 1998, devido a dois "ganchos" deixados no manuscrito:
  1. Em 1992, fiz a primeira divisão dos reinos em províncias e escolhi nomes de cores para as províncias tamatiscas. Os nomes da maioria dessas cores foram tirados da heráldica, e não do vocabulário comum do português. Ex: goles (em vez de vermelho), sinople (em vez de verde), etc. Essa escolha foi justificada face um suposto conservadorismo das crianças tamatiscas em comparação às demais.
  2. Meses depois, descrevi as crianças que vivem na floresta de Grínkor: o povo da mata. Provavelmente por influência cultural, representei-os com um quê de índios sulamericanos.
Foi a partir da relação identitária que estabeleci entre o povo da mata e índios que me vi instigado a representar seus diálogos num idioma diferente. Em vez de usar um idioma artificial e completamente arbitrário, decidi que usaria o próprio Tupi Antigo nesses diálogos, como uma forma de valorizar a cultura brasileira. Essa tarefa teve início em 1998, estimulado pela aquisição do recém-lançado Método Moderno de Tupi Antigo, do Eduardo Navarro, que estudei a fundo com o propósito de escrever diálogos tupis gramaticalmente corretos. Nos anos seguintes ampliei o estudo do Tupi Antigo a partir de livros de Lemos Barbosa e Frederico Edelweiss, encontrados em sebos ou na biblioteca da FFLCH/USP.


À época também estudava Alemão e aperfeiçoava a fluência em Esperanto. Estava cada vez mais interessado em Linguística. E um dos livros da FFLCH que acabou prendendo minha atenção foi Estruturas Trecentistas, da Rosa Virgínia Mattos e Silva, que apresentava uma "gramática" do Português de 1300. Emprestei o livro e comecei a lê-lo por mero interesse intelectual. Ao cabo de alguns meses, adquiri um exemplar dele, bem como algumas gramáticas históricas da Língua Portuguesa.

Quanto mais o estudava, mais me perguntava se não poderia também usar o Português Antigo em algum trecho do Rei Adulto. Seria algo associado aos tamatiscos, devido ao seu gosto mais tradicionalista e conservador. Todavia, por essa época, eu já tinha claro que o Tamatich fora formado pela união dos reinos rivais de Tamma e Ticch, um rigidamente espartano e o outro hedonista e filosófico. O Português Antigo não se encaixaria bem na boca de um ticco, mas se adequaria perfeitamente aos tammanos. Ainda assim, considerei que longos diálogos em Português Antigo poderiam soar incompreensíveis ao leitor, devido à quantidade de palavras arcaicas que seria preciso empregar. Por isso, decidi por algo intermediário: um falar artificial, que conteria uma mistura arbitrária de diversas formas gráficas da história da Língua Portuguesa, isto é, seguiria parcialmente a gramática trecentista, teria escrita etimológica, alguns arcaísmos, acentuação gráfica já abolida, entre outros. Assim nasceu o "Neotamano":

— Devemos invadir Ístar e aprisionar tôdalas creanças que usam taes imanes porcarias!

Criei o Neotamano para permitir o uso de algumas estruturas gramaticais antigas, sem prejudicar muito a compreensão da frase. Ele é explicado no universo da história como um falar de compromisso surgido da convivência forçada entre ticcos e tammanos, após a unificação do Tamatich. O Neotamano seria uma evolução do Tammanor, o qual representaria exclusivamente o Português de 1300 e que ficou reduzido a curtos diálogos, que empregam palavras reconhecíveis, ainda que em roupagem arcaica:

 — Deueras importamte, cõ seu perdom. Uossa Ualentia importars’ia de a meu jrmãao mays nouo padrĩhar, qual jrmãao emcorporado aa guarda paaçal oje sera?

Os demais falares surgiram em consequência dessas decisões de incorporar à caracterização dos reinos infantis variantes linguísticas. Assim, tomei o rio Lennx como a grande fronteira linguística natural entre o Sulino e o Nortenho, representados pelos Português Brasileiro e Europeu, respectivamente:

— E eu cá dou de baldar-me justamente quando as coisas começam a ficar divertidinhas? (Nortenho)

— Com’é, não vai me dizer que bicho é esse que leva três semanas pra ser pego por mais de uma dúzia de guris? (Sulino)

Para o Gandaio usei uma modalidade de português informal bastante oral, carregada de gírias, praticada em áreas pobres do sudeste brasileiro:

— Fui só dá um rolé na cidade pra achá algo de comê. Mas os trol viu eu e me cegô dinovo. Logo passa, toda’ zas vez foi ansim. 

Mesmo dentro do Sulino e do Nortenho, espera-se alguma variação ao longo de cada reino, embora mais suave. Destas, a mais evidente fica por conta do Nortenho usado pelos macebóis, que se inspira na ordem sintática e em derivações lexicais do Alemão adaptadas ao Português Europeu, como se fossem crianças que pensam em Alemão mas falam em Português:

— Venho-lhe sopedir que aos viajantes que seus guardas hoje nos limites da floresta aprisionaram liberte.

Uma ordem sintática não natural ao Português também foi usada nos diálogos de crianças do povo da mata quando elas se expressam em Nortenho. Nesse caso, uso ordem sintática e estilo do Tupi Antigo, como se fossem erros naturais de um falante que se expressa em idioma diferente do materno:

— Vos ter como hóspedes nos honra muito. Ficai todo o tempo de vosso querer.

A tabela mostra uma comparação ligeira entre os quatro principais falares da história:

Nortenho Sulino Neotamano Gandaio
mesmo para um cavaleiro mesmo pra um cavaleiromeesmo pera um cavalleiro mermo prum cavalero
Não o conheçoNão o conheçoNom no conoscoNum conheço ele
Fá-lo-ei Vou fazê-loFal-o-ei Vô fazê iss'aí
Também eles se calaramEles também se calaramTambém elles calárom-seEles tumém se calaro
Não há perigoNão tem perigoNom há peligroNum tem pirigo
 O que fazeis aqui?O que fazem aqui?O que acá fazeis?Quê que cês faz aqui?

No mapa abaixo, vê-se a distribuição espacial desses falares no Mundo Mirim:


domingo, 10 de julho de 2016

Que sotaque mais esquisito!




Que sotaque mais esquisito!... É assim que o ladrãozinho Wáldron reage ao ouvir pela primeira vez a fala de uma criança proveniente do Tamatich. Na vida real, todos temos estranhamento similar quando ouvimos um falar, um sotaque ou idioma próximo, levemente inteligível. Com algum esforço, é possível entender a maioria das palavras e o contexto completo da frase, mas ressoará vividamente no ouvido uma sonoridade e cadência pitorescas.

Como transpor para o texto esse estranhamento mágico que o som da fala de falantes diversos proporciona?

Em O Rei Adulto, com exceção do povo da mata, todas as crianças falam a mesma língua. Mas há diferentes falares, sotaques e, quanto muito, subdialetos.

Para representar esses falares imaginários num texto escrito, pode-se criar línguas artificiais ou usar o farto material linguístico já existente no idioma no qual a história será contada. Línguas totalmente artificiais representam bem mundos fantásticos e oníricos, mas carecem de apelo ao leitor, dado que seus elementos serão totalmente arbitrários. A segunda opção, por outro lado, quando aliada a algumas criações artificiais, pode representar melhor um conjunto de falares que guardam estreita relação entre si, no universo da história. Esta escolha pode ser melhor compreendida se considerarmos que toda história é em si uma tradução de pensamentos e ideias ao idioma escolhido para representá-la. Assim, ao contar (“traduzir”) O Rei Adulto na (para) a Língua Portuguesa, usei diversos recursos ortográficos, variantes históricas, sociais ou regionais do Português, bem como o Tupi Antigo, língua indígena que tanto enriqueceu o vocabulário do Português do Brasil e me pareceu, assim, adequada para representar o idioma dos caaporas. Grande liberdade foi tomada neste aspecto, no sentido de colorir cada etnia do Mundo Mirim.

São vários os falares que se sucedem na narrativa: o Sulino e o Nortenho (representados, respectivamente, pelo Português Brasileiro e Europeu), o arcaico Tammanor (representado pelo Português do Século XIII), o artificialíssimo Neotamano (que mescla o Nortenho e o Tammanor) e o desregrado Gandaio, adotado pelas crianças que vivem na Gandaia.

Aos poucos Wáldron irá se acostumar à fala dos tamatiscos, até se deparar com uma fala ainda mais arcaica:



Quer saber mais? Acompanhe nosso blog!